Laura passava os dias observando o mundo pela fresta da janela do apartamento 804. Desde o trauma de um assalto violento três anos antes, ela não saía mais sozinha. O mundo lá fora parecia sempre escuro, mesmo nos dias mais ensolarados. Os amigos haviam se afastado, os empregos foram sendo recusados, e sua existência se resumia ao sofá, ao silêncio e às janelas fechadas.
Um dia, no entanto, algo mudou. Um novo vizinho chegou um homem de cabelos grisalhos, sempre acompanhado de um cachorrinho branco e alegre chamado Sol. Toda manhã, ele acenava para Laura, que apenas recuava a cortina. Um dia, ele deixou um bilhete em sua porta: "Quando quiser dar o primeiro passo, Sol e eu estamos prontos."
Laura chorou. Pela primeira vez em meses, não era o medo que dominava, mas a possibilidade. Sentiu o coração acelerar não por pânico, mas por desejo. Trêmula, calçou os sapatos, abriu a porta e desceu. Na calçada, Sol correu em sua direção, abanando o rabo. O vizinho sorriu.
"Não é preciso ir longe. Às vezes, basta descer um andar da alma pra voltar a viver", disse ele, oferecendo-lhe um passeio até a praça da esquina.
Naquela caminhada curta, Laura viu cores que não via havia muito tempo. O sol filtrado pelas árvores, o som das crianças brincando, o cheiro da vida.
Nos meses seguintes, Laura se matriculou em aulas de cerâmica, abriu as janelas da casa e da alma e reencontrou antigos amigos. Criou coragem para contar sua história num podcast sobre superação. Recebeu centenas de mensagens de apoio, e uma delas vinha de uma jovem que dizia: "Você foi a luz que faltava pra eu abrir minha janela."
Laura ainda sente medo, mas agora sabe: a luz sempre espera. Basta uma fresta para ela entrar.
"Esta obra é uma ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência."